O mar não perdoa quem treina pouco a remada e exige tudo do corpo de uma vez. Está na água há uma hora, já apanhou as ondas que queria, e ao tirar o fato sente os ombros pesados, o pescoço teso, e talvez um joelho a avisar que aquela última manobra não foi propriamente suave. Quem surfa com regularidade conhece esta sensação — e a maioria aprende a viver com ela, achando que faz parte do desporto.
Faz parte, até certo ponto. O surf não lesiona como um desporto de impacto direto — a maior parte do tempo na água é passada em posições isométricas mantidas (a remar, prono na tábua) ou em movimentos explosivos e assimétricos (o pop-up, as viragens sempre para o mesmo lado). É essa combinação, mais do que qualquer choque único, que desgasta zonas específicas do corpo de forma previsível.
Vou percorrer as 7 zonas que mais sofrem no surf, explicar o mecanismo por detrás de cada uma, e dizer com honestidade onde a massagem desportiva ajuda, onde não chega, e quando o sinal certo é mesmo ir ao médico.
As 7 Zonas Que Mais Sofrem no Surf
Cada zona sofre por um motivo mecânico diferente. Vale a pena entender o porquê antes de pensar no tratamento.
O momento em que estas zonas começam a incomodar também segue um padrão, e está ligado diretamente ao volume de água. Em quem está a começar, o risco maior nas primeiras semanas é precisamente a hiperextensão prolongada da coluna ao remar, porque a musculatura de suporte ainda não está desenvolvida. Em surfistas com mais experiência, predominam as lesões de desgaste lento — sobretudo ombro e joelho — que só se tornam evidentes depois de anos de prática acumulada. Há também uma correlação clara com a intensidade: estudos de vigilância de lesões em surfistas mostram que surfar mais de 6,5 horas por semana está associado a um risco significativamente mais alto de lesão do que surfar menos. Não é apenas “mais sessões, mais desgaste” — a partir de certo volume semanal, o corpo deixa de ter tempo suficiente para recuperar entre sessões, e é aí que o risco sobe de forma desproporcional.
1. Ombro — a zona que mais se queixa
O ombro é, de forma isolada, a articulação mais afetada no surf — estudos clínicos associam-no à maioria das lesões crónicas em surfistas. A causa é a remada repetida: o manguito rotador (um grupo de quatro músculos e tendões que mantêm a cabeça do osso do braço encaixada na omoplata) é solicitado centenas de vezes por sessão. Quando os músculos que remam ficam mais desenvolvidos do que os estabilizadores da omoplata, cria-se um desequilíbrio — o tendão do músculo supraespinhoso passa a roçar num espaço estreito a cada remada, inflama, e dói.
2. Pescoço — a tensão isométrica da remada
Para remar, o pescoço fica em extensão prolongada — cabeça levantada, olhar para a frente, durante minutos seguidos, repetidamente. Esta posição mantém os músculos da base do pescoço e do trapézio em contração isométrica constante. Não é um movimento que lesiona de repente; é a postura mantida que, sessão após sessão, deixa a zona crónicamente tensa, sobretudo se a mobilidade da coluna torácica for limitada e o pescoço tiver de compensar essa falta.
3. Lombar — gira sempre para o mesmo lado
Tal como o pescoço, a zona lombar é mantida em extensão prolongada durante a remada. A isto soma-se outro fator menos falado: surfistas regularfoot e goofyfoot giram sempre na mesma direção nas manobras, o que cria um desequilíbrio muscular entre os dois lados do tronco ao longo de anos de prática. A combinação de extensão sustentada mais rotação assimétrica é uma das causas mais comuns de dor lombar crónica em quem surfa com regularidade.
4. Joelho — a torção nas viragens
O joelho sofre principalmente na zona interna (ligamento colateral medial e menisco medial). O mecanismo típico é uma perna a deslizar ou ficar presa na tábua enquanto a outra mantém o movimento, ou o impacto da própria onda a comprimir o joelho durante uma manobra. É uma lesão de torção, não de desgaste lento — por isso costuma ser sentida de forma clara, num momento específico.
5. Tornozelo — a rigidez que limita o pop-up
Entorses antigas do tornozelo, mesmo já “resolvidas”, deixam muitas vezes uma rigidez residual que limita a profundidade do agachamento no pop-up e nas viragens. Isto cria um ciclo: o tornozelo rígido obriga a compensações noutras articulações (joelho, lombar), que por sua vez ficam mais expostas a sobrecarga.
6. Pulso — a queda sobre a mão estendida
A entorse do pulso surge tipicamente numa queda — a mão estende-se para amortecer o impacto, e o pulso é forçado além do seu limite normal de movimento. É uma das poucas lesões desta lista que acontece de forma súbita e não por desgaste acumulado.
7. Ouvido — o “surfer’s ear” que ninguém espera
Este é o mais surpreendente da lista. A exposição repetida a água fria e vento favorece o crescimento de pequenas formações ósseas dentro do canal auditivo — uma condição conhecida informalmente como “ouvido de surfista”. Não dói no início, mas pode causar infeções de ouvido recorrentes e, sem acompanhamento, levar a perda auditiva. É mais comum em quem surfa regularmente em água fria, e a prevenção é simples: tampões para os ouvidos ou um capuz de neoprene.
O Fato de Neoprene Também Tem um Papel
Vale a pena falar do equipamento, porque também influencia o corpo.
Um fato mais espesso mantém o corpo mais quente em água fria, mas tem um custo: mais espessura significa mais resistência ao movimento. Estudos que comparam remar com e sem fato mostram um aumento real da ativação muscular no ombro ao remar de fato — o corpo trabalha mais para produzir o mesmo movimento. Em água fria, isto soma-se a outro fator: o próprio frio deixa os músculos menos elásticos e mais lentos a responder, o que aumenta ainda mais a tensão acumulada ao longo de uma sessão longa.
Não significa abandonar o fato — é equipamento essencial. Significa estar consciente de que sessões longas em água fria, com fato espesso, pedem mais ao corpo do que parece à superfície, e que isso só reforça a importância de cuidar das zonas referidas acima.
Alguns Termos Explicados
- Manguito rotador — o grupo de músculos e tendões que mantêm o ombro encaixado e estável durante o movimento; é a estrutura mais sobrecarregada pela remada.
- Impacto subacromial (impingement) — quando um tendão do ombro fica comprimido num espaço estreito do osso a cada movimento repetido, causando inflamação e dor.
- Extensão isométrica — quando um músculo se mantém contraído numa posição fixa por tempo prolongado, sem se alongar nem encurtar mais — é o que acontece no pescoço e na lombar durante a remada.
- Banda tensa — uma faixa de músculo que permanece contraída e sensível ao toque, geralmente associada a sobrecarga repetida.
Quando a Massagem Ajuda (e Que Tipo)
A massagem desportiva ajuda nestas situações sobretudo a reduzir a tensão acumulada nos músculos sobrecarregados e a melhorar a mobilidade das zonas mais rígidas — ombro, pescoço, lombar e tornozelo respondem particularmente bem a este tipo de trabalho.
O trabalho costuma combinar técnica mais profunda nas zonas com banda tensa (ombro, lombar) com mobilização mais suave nas articulações mais rígidas (tornozelo, pescoço). Para o pulso e o joelho, sobretudo depois de uma entorse recente, a avaliação inicial é o que determina se ainda é cedo para trabalho manual ou se é preferível esperar a fase aguda passar primeiro.
Para o ouvido, a massagem não tem qualquer papel — essa zona é puramente uma questão de prevenção (proteção da água fria) e, se já há sintomas, de avaliação médica.
Quantas Sessões, Sem Rodeios
Se surfa com regularidade, nem pense em fazer uma sessão isolada quando já dói muito e esperar que isso resolva tudo. Quem ama a tábua tem de aceitar que a marquesa também faz parte do equipamento.
Para manter o corpo a aguentar bem o ritmo de remada e manobras, uma sessão de manutenção a cada 2 a 4 semanas costuma ser o mínimo eficaz. Se já há uma zona específica claramente sobrecarregada — ombro ou lombar, tipicamente — o início costuma ser mais intensivo, 1 a 2 sessões por semana nas primeiras semanas, antes de baixar para esse ritmo de manutenção.
O Que Acontece Se Não Fizer Nada (ou Se Calar a Dor)
Vale a pena ser direto sobre o pior cenário, sem exagerar.
As zonas desta lista raramente “curam-se sozinhas” quando a causa — o padrão de movimento repetido do surf — continua igual sessão após sessão. Calar a dor e continuar a surfar do mesmo modo tem um mecanismo concreto por detrás: numa fase inicial, o tendão sobrecarregado fica inflamado (é a fase de tendinite, ainda reversível). Se essa fase for ignorada repetidamente, o tendão deixa de apenas inflamar e começa a degenerar a nível estrutural — chama-se tendinose, e já não é uma inflamação simples, é um desgaste real do tecido, que demora muito mais tempo a resolver e tem maior probabilidade de evoluir para uma rotura. É exatamente o percurso descrito na literatura ortopédica para lesões de sobreuso: tendinite ignorada repetidamente torna-se tendinose.
Na prática, isto significa uma progressão silenciosa: o desconforto ocasional no ombro torna-se dor reconhecível, a dor reconhecível torna-se uma limitação que obriga a parar mais cedo na água, e em alguns casos (sobretudo no ombro e na lombar) o que começou como tensão muscular evolui para uma lesão estrutural que já precisa de tratamento mais longo, ou mesmo cirurgia. Adiar o cuidado não elimina o problema — só o empurra para uma fase mais difícil e mais lenta de resolver.
Quando NÃO É Massagem: Sinais Para Ir Já ao Médico
Há um sinal raro mas sério que todo o surfista deve conhecer, sobretudo quem está a começar. Remar durante muito tempo com a coluna em hiperextensão pode, em casos raros, comprimir temporariamente a irrigação da medula espinal — uma condição descrita na literatura médica como mielopatia do surfista. Os sinais de alarme incluem formigueiro ou perda de força nos braços ou pernas, dificuldade em controlar a bexiga, ou dor súbita e intensa nas costas durante ou pouco depois de uma sessão longa de remada.
Se notar qualquer um destes sinais, isto não é caso para massagem — é caso para ir de imediato às urgências do SNS ou a uma clínica privada. É uma condição rara, mas precisamente por ser rara e pouco conhecida, vale a pena todos os surfistas saberem que existe.
Fora deste cenário específico, outros sinais que pedem avaliação médica antes de qualquer massagem incluem: dor que não melhora ao fim de várias semanas, inchaço visível numa articulação, ou perda de mobilidade acentuada depois de uma queda.
Exercícios Para Fazer em Casa
Estes exercícios simples ajudam a manter as zonas mais expostas mais resistentes entre sessões de surf.
- Ombro — rotação externa com elástico. Com o cotovelo fletido a 90° e colado ao corpo, puxar um elástico fixo para o lado, afastando o antebraço do corpo. 2 séries de 15, em dias sem surf.
- Pescoço e torácica — mobilidade em quadrupedia. De joelhos e mãos no chão, arredondar e depois estender suavemente a coluna torácica, deixando o pescoço acompanhar o movimento sem forçar. 1 minuto, antes de entrar na água.
- Lombar — alongamento dos flexores da anca. Em posição de afundo (uma perna à frente, outra atrás, joelho no chão), inclinar a bacia para a frente até sentir o alongamento na frente da coxa de trás. 30 segundos por lado.
- Tornozelo — mobilidade em agachamento. Agachar o mais profundo possível mantendo os calcanhares no chão, segurando-se num apoio se precisar de equilíbrio. Repetir lentamente 10 vezes.
- Pulso — extensão suave. Com o braço estendido, puxar suavemente os dedos para trás com a outra mão, sentindo o alongamento no antebraço. 15-20 segundos por lado.
O melhor momento para estes exercícios é fora da água — antes de surfar para preparar o corpo, ou num dia sem mar para manter a mobilidade. Não são substitutos da massagem nem da avaliação quando já existe dor; são manutenção para quando o corpo está bem.
Já reconhece alguma destas zonas no seu próprio corpo depois de uma sessão? Uma avaliação inicial ajuda a identificar exatamente o que está sobrecarregado e a definir um plano — sem empurrar mais sessões do que precisa. Marcar avaliação pelo WhatsApp.
“Não preciso de surfar para entender o que o corpo de um surfista atravessa — vejo isso todas as semanas na marquesa. Vem até mim, avalio a sua situação com calma, e a partir daí desenhamos juntos um plano: de recuperação, se já há uma zona a sofrer, ou de manutenção, se o objetivo é continuar a aguentar bem o ritmo. E se vir um sinal mais sério, digo de imediato: vá já ao médico. A saúde vale sempre mais do que qualquer sessão.”
— Dmytro Chervenyak, Fisalis
Sessão Única ou Pacote? A Decisão é Sua
Se já identificou a zona que mais lhe pesa e quer começar por aí, uma sessão única já ajuda a aliviar a tensão acumulada e a entender melhor o que está a causar o desconforto.
Se surfa com regularidade e quer manter o corpo a aguentar esse ritmo ao longo do tempo, um pacote de sessões espaçadas (a cada 2-4 semanas) costuma fazer mais sentido do que sessões isoladas só quando já dói — mas essa decisão é sempre sua. O mínimo realista para sentir diferença sustentada costuma ser 3 sessões num período de 2-3 meses; a partir daí, ajusta-se conforme a resposta do corpo.
Qual é a lesão mais comum em surfistas?
O ombro, sobretudo lesões do manguito rotador relacionadas com a remada repetida. É a articulação mais associada a lesões crónicas no surf.
Porque dói a lombar depois de surfar?
A combinação de extensão prolongada da coluna durante a remada com a rotação sempre para o mesmo lado nas manobras sobrecarrega a zona lombar de forma assimétrica ao longo do tempo.
A massagem ajuda na dor de ombro de surfista?
Sim, ajuda a reduzir a tensão muscular acumulada e a melhorar a mobilidade. Em casos de lesão mais estrutural do manguito rotador, a avaliação médica é o primeiro passo antes da massagem.
O que é a mielopatia do surfista?
Uma condição rara causada por hiperextensão prolongada da coluna ao remar, que pode comprimir temporariamente a medula espinal. Sinais como formigueiro ou perda de força nos membros exigem avaliação médica imediata.
Posso fazer massagem se tiver uma entorse recente no joelho ou tornozelo?
Depende da fase. Em entorses muito recentes, é preferível esperar a fase aguda passar e ser avaliado primeiro. A massagem é mais útil na recuperação posterior, não na fase inicial da lesão.
O fato de neoprene piora a tensão muscular?
Pode contribuir, sobretudo um fato mais espesso em água fria, que aumenta a resistência ao movimento e exige mais do ombro a cada remada.
Quantas sessões de massagem preciso se surfo todas as semanas?
Uma sessão de manutenção a cada 2-4 semanas costuma ser o mínimo eficaz. Se já há uma zona claramente sobrecarregada, o início pode ser mais frequente, 1-2 vezes por semana nas primeiras semanas.
O que é o “surfer’s ear”?
Uma condição em que a exposição repetida a água fria e vento favorece o crescimento de pequenas formações ósseas no canal auditivo. Previne-se com tampões ou capuz de neoprene.
Fontes e Referências
Este artigo baseia-se em literatura clínica revisada e na prática do Dmytro Chervenyak na Fisalis. Para quem quiser aprofundar:
- PMC — Shoulder Injury in Surfing: A Systematic Review with Meta-Analysis
- Physio-pedia — Surfer’s Back
- Physio-pedia — Surfer’s Neck
- PMC — Surfer’s Myelopathy: A Review of Etiology, Pathogenesis, Evaluation, and Management
- Active & Safe — Surfing Injury Risk Factors and Surveillance Data
Este artigo tem carácter educativo e não substitui uma avaliação presencial. Em caso de sinais de alarme (formigueiro, perda de força, dor súbita intensa), procure avaliação médica imediata.
Cuide do Corpo Que Lhe Permite Continuar a Surfar
Identificou a zona que mais lhe pesa? Uma avaliação inicial ajuda a entender exatamente o que está sobrecarregado e a decidir, com informação, entre uma sessão única ou um plano de manutenção.
Sessão de avaliação + massagem desportiva: 40€ (60 min) ou 55€ (80 min, com pressoterapia).
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Quer saber quantas sessões precisa ao certo? Veja o artigo quantas sessões de massagem desportiva precisa. Tem uma dor específica de corrida? Veja o artigo sobre canelite em corredores.

